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Queres "Saber-Fazer"? É a rubrica lúdico-pedagógica, com atividades para toda a família, criada pelos Serviços educativos do MEM, de modo a dar continuidade ao trabalho desenvolvido, habitualmente, no atelier e jardim do museu, no âmbito do projeto "OTL - Museu, Espaço de Lazer".
A quinta atividade pretende dar a conhecer as "bonecas de massa", transmitindo o "saber-fazer" desta atividade artesanal ancestral.
As "bonecas de massa" ou “bonecas de maçapão” eram figuras comestíveis, confecionadas com farinha de trigo (massa de pão) e eram vendidas, tradicionalmente, nos nossos arraiais. O casal de bonecos simboliza a união e, portanto, a fertilidade e a fecundidade.
Presenças obrigatórias nos arraiais, estas figuras eram exibidas pelos romeiros, sendo colocadas nos chapéus, penduradas nos colares de rebuçados ou transportadas na mão por crianças e adultos.
O uso de figuras rituais modeladas em massa de pão remonta à Antiguidade. Usualmente associadas a rituais de fertilidade, ao culto dos mortos ou a rituais agrícolas, relacionados com a regeneração e proteção das sementeiras, estes “bonecos comestíveis” ocupam um lugar muito específico entre a doçaria e os pães figurativos, tendo sido o seu fabrico muito comum na Idade Média.
Em Portugal a par da doçaria conventual, amplamente difundida a partir do século XVI, surgiu também uma outra, de caráter profano, comercializada nas romarias pelos vendedores ambulantes, na qual se incluía vários tipos de doces e pão, cuja morfologia variava de região para região. As suas formas iam desde figuras antropomórficas, a figuras relacionadas com a flora e a fauna ou inspiradas em motivos populares, nomeadamente o coração, símbolo muito enraizado na cultura popular portuguesa.
Desconhece-se ao certo a origem deste figurado de maçapão vendido no nosso arquipélago, por altura das Romarias, nos chamados arraiais. É no entanto provável que tenha sido introduzido pelos primeiros colonos e se tenha transformado, ao longo do tempo, pelas mãos e criatividade das nossas artífices, distinguindo-se pelas suas originais formas e cores.
As figuras produzidas são morfologicamente variadas e possuem diferentes dimensões: o casal, inspirado na figura humana feminina e masculina, símbolo de fertilidade e fecundidade, o galo, que simboliza a vigilância e o trabalho e relaciona-se com cultos ancestrais de proteção na doença, as pulseiras ou argolas, símbolos do eterno retorno e da eternidade e os cestinhos encanastrados.
Salomé Teixeira, natural do Sítio da Mãe de Deus, freguesia do Caniço, concelho de Santa Cruz, dedicou toda a sua vida à produção destes artefactos, tendo aprendido o ofício com a sua mãe. O Museu Etnográfico da Madeira possui uma coleção deste figurado da autoria desta artífice. Esta atividade artesanal sobreviveu, nesta família, ao longo de várias gerações. A D. Ludovina, uma prima desta artífice, e as suas três filhas, Felicidade, Glória e Trindade, naturais do Sítio dos Barreiros, na mesma freguesia, também se dedicaram durante muitos anos a este ofício.
Todas as fases de fabrico exigiam muita habilidade, adquirida ao longo de muitos anos de aprendizagem no seio familiar: havia que preparar a massa, tendê-la, modelar as figuras, ornamentá-las e cozê-las. As matérias-primas utilizadas nestes artefactos eram farinha, água e fermento para fazer a massa, corante de ovo para lhes dar cor, papel de seda azul e vermelho para ornamentar as figuras e sementes, nomeadamente de “bananeira de jardim” ou de “cebolinho”, para colocar nos olhos dos bonecos e passarinhos.
Estes elementos permaneceram até os dias de hoje, afirmando-se quase como um “símbolo” destas festividades e ocupando um lugar de destaque no nosso artesanato tradicional, podendo esta ser considerada uma das utilizações mais interessantes dos cereais na produção artesanal madeirense.

Créditos: Museu Etnográfico da Madeira.

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