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Autores desconhecidos.
Londres, R. Ackermann (editor) 1821.
Água-tinta.
Gravura que retrata um episódio do quotidiano regional, em jeito de caricatura ingénua, mais divertida que mordaz. A recolha de donativos por parte de religiosos era uma prática comum em toda a ilha e serve de tema a este apontamento de crítica social. A cena desenrola-se no exterior onde se encontra montada uma bancada de rua bem fornecida de pão, fruta e possivelmente vinho. A vendedeira, sentada, estende um pão ao frade franciscano que, de saco ao ombro, lhe oferece a mão a beijar, gesto antigo que normalmente acompanha a bênção dada em agradecimento da dádiva. O contraste entre as figuras acentua o olhar crítico sobre este tipo de práticas e costumes locais. A resignação da camponesa, frágil e vulnerável, em óbvia oposição à obesidade do franciscano e à satisfação que irradia do seu rosto rosado, ilustram bem o sucesso dos frades na sua atividade de angariação. Aliás o texto que acompanha esta imagem esclarece que a ordem mendicante franciscana, era sustentada pela caridade das populações e que um dos seus alvos preferenciais, no Funchal e no campo, eram os vendedores ambulantes porque raros eram os que se recusavam a contribuir.
Água-tinta é a de técnica de gravação desta estampa, impressa a preto e colorida à mão, a aguarela. As cores seriam aplicadas de origem, antes da venda e distribuição dos exemplares desta única edição, como fica explícito no próprio título do livro que refere “coloured engravings” (gravuras coloridas). Tal facto explica a uniformidade das cores em todos os livros que chegaram até nós, as quais seriam muito semelhantes às dos desenhos originais. Confirma também algumas subtis diferenças entre gravuras idênticas, o que é compreensível na coloração manual. O recurso a uma paleta limitada é natural neste tipo de trabalho demasiado repetitivo, pelo que das cores selecionadas - preto, verde, azul, amarelo e rosa - é o laranja que ressalta. É a cor que aviva os detalhes aplicada na capa e no debrum da carapuça da personagem feminina, na fruta e no jarro colocado no parapeito da janela.
Esta é uma das 27 ilustrações do livro “A History of Madeira with a series of twenty-seven coloured engravings, illustrative of the costumes, manners, and occupations of the inhabitants of that Island”. Editado em Londres, por R. Ackermann e publicado em agosto de 1821, o texto da autoria de William Combe (Bristol 1741- Londres 1823) foi escrito na etapa final da sua vida.
Apesar de nunca se ter deslocado à Madeira, William Combe tem larga experiência em escrever sobre as mais diversas paragens que conhece apenas através de leituras atentas e de informações que compila. No âmbito da literatura de viagens ele é um escritor contratado, especialista em rever, melhorar e preparar para publicação escritos de viajantes. Deste modo o seu relato baseia-se noutros anteriores e o seu contributo recai essencialmente nos textos, em verso e em prosa, que acompanham cada uma das estampas.
Desconhece-se quem foi o autor dos desenhos que deram origem a esta estampa, sabe-se apenas que se trata de um estrangeiro residente alguns anos na Madeira e em Portugal, ao qual é possível associar, no nosso país, 3 conjuntos de aguarelas e guaches, de tipos populares, militares e religiosos, regionais e nacionais. O facto de surgirem conjuntos associados em álbuns, poderia revelar um artista especializado no registo de costumes, de figuras tradicionais e tipos populares, o que não seria estranho atendendo a que é precisamente na primeira metade do século 19 que se multiplicam, graças à sua grande aceitação, as edições ilustradas de usos e costumes.
Rudolph Ackermann, editor com tipografia estabelecida em Londres desde 1795, foi responsável pela publicação de inúmeras obras ilustradas, muitas das quais topográficas e de viagens. Os seus livros com estampas a cores eram de reputada qualidade numa época em que não havia fotografia e que as imagens, sobretudo quando coloridas, constituíam um luxo e um enorme atrativo nas publicações.
Créditos: Casa-Museu Frederico de Freitas
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