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Marfim, madeira, laca e madrepérola.
Japão, 1862-1912.
O requinte desta pequena escultura da criança que corre atrás do arco, reside no trabalho muito cuidado de cada uma das suas partes, sejam elas de marfim, como a cabeça, as mãos, os pés e o brinquedo, ou de madeira, como as vestes e a base. Os traços faciais, lábios, olhos e cabelos, estão delicadamente pintados. Nenhum detalhe é descurado, a cabeça rapada, com dois tufos de cabelo laterais e duas mechas apanhadas em dois carrapitos ao alto, um dos quais atado com um minúsculo laço cor de laranja. O quimono, cingido na cintura pela faixa “obi” que aperta com um grande laço nas costas, está decorado com manchas lacadas de cor alaranjada que podem representar nevoeiro ou nuvens e delicados motivos, flores, folhas e outros estilizados, pintados com lacas de cor alaranjada e dourada ou incrustados a madrepérola; nos pés usa chinelas de sola entrançada.
No traje é ainda visível o “kamon” ou timbre da família - a flor em losango de quatro pétalas, inscrita num círculo, associada ao clã “Hanabishi” - esculpido em cinco minúsculos discos de madrepérola, distribuídos pelo casaco “haori”, nomeadamente na parte posterior e anterior dos ombros e nas costas, abaixo da gola. Nas mãos segura uma pequena vareta e uma cana de bambu bifurcada, com a qual guia o arco. A figura assenta sobre uma base irregular de madeira.
“Okimono” é o termo japonês que identifica estes objetos decorativos que podiam representar figuras humanas, animais, ou vegetais, realizados em metal fundido (normalmente bronze), esculpidos em marfim, madeira ou, como neste caso, associando os dois materiais. Originalmente destinavam-se a ser expostos no “tokonoma”, nicho onde se exibiam as peças especiais da casa, como rolos de pintura, ou de caligrafia, um arranjo floral “ikebana”, ou outros objetos de luxo, fossem eles de cerâmica, metal ou de outro material.

Estas esculturas tiveram especial difusão no período Meidji (1868-1912), altura de grandes reformas e mudanças com vista à abertura e modernização do Japão. Esta  ocidentalização dos costumes, tornou desnecessária toda uma mão de obra altamente especializada, nomeadamente os escultores de imagens religiosas após o fecho de inúmeros mosteiros; de “netsuke” acessório de vestuário esculpido em marfim ou madeira, tornado desnecessário com o abandono do traje tradicional, ou mesmo os ferreiros/ fundidores, fabricantes de espadas, após a proibição do seu uso. Estes artistas detentores de um saber acumulado ao longo de gerações, tornam-se exímios escultores de “okimono”. Estas peças caracterizavam-se pela sua excecional qualidade, pelo dinamismo, expressividade, perfeição técnica e atenção aos detalhes. A defesa da qualidade e a manutenção das técnicas ancestrais foi sempre uma preocupação das autoridades e artistas locais, o que resultou na promoção do ensino artístico e na criação de escolas nos principais centros de produção. A partir da década de 70 do século 19, a participação em inúmeras feiras internacionais, na Europa e nos Estados Unidos, a par do renovado fascínio pelo exotismo do Oriente, mais precisamente pelo Japão, resultam numa enorme procura por este género de artigos cuja produção se vira e centra no mercado de exportação.

Créditos: Casa-Museu Frederico de Freitas

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