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Círculo de Domenico Zampieri, Il Domenichino (Bolonha, 1581-Nápoles, 1641).
Óleo sobre cobre.
Itália, séc. 17 (dp. 1614).
Pintura que representa um anjo que protege a criança do demónio, agachado à espreita. O anjo aponta os céus e empunha o escudo defendendo o menino que, de mãos postas e olhar fixo no alto, reza. À esquerda ergue-se um imponente túmulo de pedra trabalhada e num registo superior entre nuvens e querubins, sobre fundo luminoso, destaca-se a figura de Deus-Pai sentado, com Cristo e a Virgem à sua direita, um religioso ajoelhado à esquerda e o Espírito Santo, na forma de pomba de asas abertas, voando ao centro.
Tudo assume um simbolismo especial, a figura dominadora e protetora do anjo. Seguro de si e belo, de feições delicadas, tez pálida, finos caracóis loiros, amplas asas coloridas e roupagens esvoaçantes. A criança pequena, tão frágil como uma alma e o demónio, o perigo sempre latente, assustador, armado, escuro, feio, de fisionomia vincada, cornos na cabeça e garras nos pés. Ao longe a paisagem terrena, ampla, montanhosa, arborizada e, no lado oposto, a sepultura, como um marco de que nada é eterno e que a vida tem um fim. No alto está a solução e o anjo indica o caminho para a santidade, iluminado pela graça do Espírito Santo e recompensado pela presença junto a Deus, a par de Cristo e sua Mãe.
Este pequeno óleo sobre cobre, reproduz uma pintura de grande formato, realizada em 1614, por Domenico Zampieri, mais conhecido por Il Domenichino. O trabalho original destinava-se ao altar da capela da família Vanni, da invocação do Anjo da Guarda, na Igreja de São Francisco de Assis, em Palermo. A encomenda por parte da família Vanni, em cujo brasão figura um cão, poderá explicar a representação daquele animal no túmulo de pedra. Posteriormente, em data anterior a 1708, a pintura sofreu um corte perdendo-se o registo superior onde figurava a Santíssima Trindade e, em 1792, foi oferecida a Ferdinando II, rei das Duas Sicílias, encontrando-se hoje no Museu de Capodimonte, em Nápoles. Será assim este exemplar da Casa-Museu Frederico de Freitas um precioso testemunho da pintura na sua versão completa.
A devoção ao Anjo da Guarda cujas raízes remontam ao Antigo Testamento e ao Anjo que acompanha Tobias, baseia-se na crença de que cada ser humano tem o seu anjo protetor. Este culto, nascido em Espanha no século 16, torna-se particularmente popular, a partir de 1608, quando por intervenção do Papa Paulo V é estendido a toda a igreja católica.
Domenichino é uma figura importante na pintura italiana do século 17. O seu percurso profissional, associado a Ludovico e Aníbal Carracci, desenvolve-se entre Bolonha, Roma e Nápoles, através de importantes encomendas papais e comissões privadas, abarcando vários géneros de pintura, religiosa, histórica, mitológica, retratos e paisagens, em suportes tão variados como tela e o cobre, mas também frescos em abóbadas, tetos, paredes. As suas composições eram belas, no sentido de serem agradáveis à vista, seguia os ideais clássicos, retratando figuras humanas idealizadas, de emoções contidas, com poses e gestos calculados de forma a criar equilíbrio e harmonia. Preocupava-se com o aspeto formal e didático das suas pinturas, especialmente as de temática religiosa que deveriam expressar verdades fundamentais da igreja católica, perfeitamente assimiláveis, suscitando sentimentos de devoção e fé a quem as observava. Usou particularmente a pintura sobre cobre, tradicionalmente de pequenas dimensões, mas que permitia um grande detalhe pictórico, conseguido através de sucessivas e finas camadas de tinta aplicadas com cuidado. A rigidez e a impermeabilidade do suporte facilitavam a minúcia do trabalho e as cores, porque não eram absorvidas, mantinham-se saturadas e particularmente vibrantes. Dominava uma paleta de cores suaves, mas luminosas, o que se denota nesta representação, onde o amarelo é a cor que escolhe para brilhar, concentrando a luz nos principais pontos de atenção, nas vestes do anjo e na visão celestial.
Créditos: Casa-Museu Frederico de Freitas
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