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Litografia impressa a preto, colorida a aguarela.
Johan Christian Thornam, desenhador (dinamarquês, 1822-1908)
Johann Adolphe Kittendorff, litógrafo (dinamarquês, 1820-1902)
Copenhaga, 1852. Que agradável é “piquenicar” no Ribeiro Frio! Não é só de agora que a zona, tão fresca e bela, é considerada o sítio ideal para uma pausa durante uma jornada ao interior da ilha. Já assim era nos meados do século 19 como esta estampa bem demonstra. Representa uma clareira aprazível, localizada junto à escarpa rochosa, atravessada por um trilho que se estende, por entre árvores frondosas, acompanhando o ribeiro. Ao fundo os picos irregulares das serras recortam-se entre nuvens brancas, sob o céu azul de um dia ensolarado. Do lado esquerdo um grupo de homens protegidos por chapéus de aba larga, faz a sua refeição. No chão, recostados ou sentados nas pedras, entre brindes e comida, parecem caçadores sem pressa. Ao contrário de um deles que, já erguido, prepara arma, enquanto outros dois de espingarda a tiracolo, se afastam ao longe. Do lado oposto outro grupo aguarda, são os chamados “burroqueiros”, os homens ou rapazes que tomam conta das montadas e que, em pé ou deitados sobre o tapete de erva verdejante, aproveitam para descansar. Distinguem-se pelas botas e pelas típicas carapuças, normalmente eram contratados quando se alugavam os cavalos e faziam todo o percurso a pé, guiando o caminho, acompanhando a passada dos corcéis, sempre sem parar nem fraquejar. Eram homens rijos, cuja resistência surpreendia aqueles que nos visitavam. Os “burriqueiros”, com seus animais, distribuíam-se por diferentes pontos da cidade aguardando serviço, uma vez contratados os cavalos ou mulas eram prontamente arreados e os preços estabelecidos de acordo com a distância da viagem proposta.
Esta estampa e outras duas de assuntos madeirenses, um “Portrait af en Forer” (retrato de um carregador) e “Prospect Mellen Rio of St. Anna” (Incursão ao Ribeiro Frio e Santana), integram a publicação ilustrada “Corvetten Galatheas Jordomseiling”, que relata a primeira expedição científica dinamarquesa, de circum-navegação à escala global, realizada a bordo da corveta Galathea e que decorreu entre os anos de 1845 e 1847. A rota partia de Copenhaga, contornava o Cabo da Boa Esperança em direção à Índia, continuava pelo Sudoeste Asiático, ilhas do Pacífico, América do Sul, regressando através do Atlântico. Expedições navais e científicas semelhantes foram organizadas por vários países europeus, ficando célebre a do brigue a inglês HMS Beagle, que durou cinco anos, de 1831 a 1836 e na qual participou Charles Darwin.
Apadrinhada pela casa real da Dinamarca, a expedição Galathea tinha interesses científicos, de estudo e investigação, mas também diplomáticos e mercantis, designadamente estreitar de relações e assegurar acordos com nações longínquas, como a China. Sob o Comando do Capitão Steen Bille, levava a bordo uma vasta lista de passageiros, entre os quais zoólogos, botânicos, geógrafos, nomeados pela Academia Real das Ciências e alguns artistas, cuja missão era retratar plantas, animais e objetos, assim como pintar paisagens, ambientes e povos de onde passassem. O mais importante foi Johan Christian Thornam (Copenhaga, 1822 - Copenhaga, 1908) artista e naturalista, autor do próprio livro e dos 30 desenhos que o ilustram, relativos à América do Sul, Havai e Extremo Oriente, e logicamente os três da Madeira, local da primeira escala da expedição e onde se realizaram algumas incursões exploratórias a exemplo do que se observa nesta estampa. As litografias foram passadas à pedra por Johan Adolph Kittendorff (Copenhaga, 1820 - Copenhaga, 1902), cuja empresa I. W. A Tegner & Kittendorff se encarregou da impressão e o livro, editado por C. W. Stincks, foi publicado em Copenhaga, no ano de 1852.
Os verdes chamativos desta litografia, tal como as restantes cores, poderiam ter sido pintados de origem, pois sabe-se que esta edição incluiu um número muito limitado de exemplares com estampas aguareladas; mas também podiam ter sido coloridos posteriormente, em data desconhecida, caso pertençam ao lote maior impresso simplesmente a preto.
Créditos: Casa-Museu Frederico de Freitas
 
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