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Manuel Cipriano Gomes “O Mafra”.
(Mafra,1831 – Caldas da Rainha,1905).
Faiança.
Portugal, Caldas da Rainha, 1870-1897.
Quem deixou entrar este lagarto VERDE! O facto é que ele entrou mesmo e ficou imóvel tentando passar despercebido em cima da travessa de folhas da mesma cor! Nunca mais o conseguimos afugentar.
É realmente realista a representação deste lagarto sobre uma cama de folhas de figueira. Trata-se de uma travessa decorativa de formato oval e côncavo, com o bordo recortado e pega castanha simulando o ramo da figueira. É realizada em faiança moldada revestida por belos esmaltes em tons de verde, castanho e subtis apontamentos de azul e amarelo.
Dentro da intensa representação da fauna e da flora usada por Manuel Mafra, os pratos e as travessas simples no formato de folhas já eram comuns na sua produção inicial, claramente inspirada na cerâmica inglesa. Preferia as folhas de hera, de videira, de louro, de sobreiro e de couve, perfeitamente modeladas e simplesmente vidradas numa belíssima cor verde. No tocante aos répteis e anfíbios, de produção posterior, entre cobras, salamandras e rãs, dominam os lagartos e os sardões, representados a verde e castanho, pontualmente manchados de azul e amarelo.
Este exemplar representativo da louça da Caldas da Rainha, foi executado precisamente pelo referido Manuel Mafra, ceramista inovador responsável pela introdução deste tipo de decoração naturalista na cerâmica da região. Manuel Cipriano Gomes, o “Mafra” nasceu a 30 de agosto de 1831 no lugar do Sobreiro, freguesia de Santo André, em Mafra. Era filho de um oleiro, com quem se iniciou nas artes do barro e tinha cerca de 20 anos quando se mudou para a Caldas da Rainha. Não demorou a ser integrado na olaria de Maria dos Cacos, a mais ativa à época, na produção de cerâmica utilitária, vendida nas feiras e que se distingue pelas características artísticas de alguns dos seus modelos, como vasilhame diverso, castiçais, garrafas, paliteiros em forma de mulheres, homens ou animais. Desde logo Manuel, chamado “o Mafra” pela sua terra natal, destaca-se como o mais hábil dos operários, acabando por adquirir a oficina, em 1853. Inicia então uma fase de inovação, alargando a policromia tradicional, adotando novos e mais elaborados modelos, optando por decorações relevadas com motivos da fauna e da flora, introduzindo novas técnicas decorativas como os areados e musgados que enriquecem e tornam única a sua produção.
Em 1860, Manuel Mafra abre uma nova oficina a “Fábrica de Louça de Caldas”, onde trabalharam, para além do próprio, vários familiares e outros operários, produzindo loiça manufaturada, artesanal, de grande apuro técnico, decoração exuberante e original. Gozou da proteção do rei consorte D. Fernando II (1816-1885), grande apreciador da cerâmica caldense e que lhe adquiria peças desde os tempos de Maria dos Cacos. Este reconhecimento garantiu-lhe clientela abastada. Proporcionou-lhe também a convivência com artistas e colecionadores, o contacto com as coleções reais, o que lhe apurou o gosto e a sensibilidade para uma estética Romântica, naturalista, inspirada no estilo de Bernard Palissy (1510-1590). Este ceramista francês, do século 16, célebre pelas suas peças moldadas a partir dos próprios animais, representava repteis, batráquios e peixes no seu ambiente natural; foi recuperado no século 19, período eclético caraterizado pelos múltiplos revivalismos. O Neopalissismo será uma dessas vertentes, seguida por sucessivos artistas franceses e ingleses, fortemente difundida e apreciada nas feiras internacionais, onde a partir de 1867 Manuel Mafra participa regularmente e cujas peças, de qualidade reconhecida, são elogiadas e por diversas vezes premiadas, entre 1871 e 1879.

Manuel Mafra será o primeiro ceramista das Caldas a marcar as suas peças e a partir de 1870, perante a quantidade de aquisições de D. Fernando, é autorizado a usar a designação de Fornecedor da Casa Real, sinal de qualidade e prestígio que lhe permite ostentar com orgulho a coroa na sua marca. No entanto, a partir da década de 80, motivos vários ditam a decadência da fábrica. São eles a morte do seu real patrono, em 1885, a ascensão do genial ceramista Rafael Bordalo Pinheiro estabelecido nas Caldas, a falta de um continuador à altura, a idade avançada e, ainda, a natural evolução dos gostos e a busca de novos modelos. A situação agrava-se quando deixa a direção, em 1887, acabando por encerrar definitivamente em 1897, alguns anos antes da sua morte, ocorrida a 12 de dezembro de 1905.

Créditos: Casa-Museu Frederico de Freitas

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