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Autor desconhecido.
Desenho à pena e aguarela sobre papel.
Portugal, Madeira, ca. 1800-1830.
Desenhe para mais tarde recordar! É este o princípio que sustenta grande parte dos álbuns de desenhos que nos ficaram do século 19. Numa época em que não existia a fotografia o registo de imagem através do pequeno apontamento de desenho era uma forma de ilustrar e conservar memórias de uma viagem. Não se trata aqui de cadernos de esboços ou diários gráficos com finalidades artísticas, mas de registos para uso pessoal ou partilha com um grupo restrito de familiares ou amigos. Os álbuns e os portefólios de aguarelas e desenhos tornam-se uma moda a partir do final do século 18. Podiam ser de um único autor ou reunir trabalhos de diversas autorias, sendo posteriormente organizados e encadernados, passavam depois a integrar as bibliotecas privadas no regresso à terra natal. Serviam como recordações, tal como mais tarde se usaram os álbuns de postais ou de fotografias. Dependendo da sensibilidade e do interesse de cada um, registava-se o pitoresco, o exótico, os costumes locais, aquilo que chamava particularmente a atenção por ser diferente. Um álbum de viagem é sem dúvida um testemunho individual e subjetivo, mas é também um importantíssimo documento iconográfico de aspetos raramente representados de outro modo, que não a escrita.
Este curioso apontamento integra precisamente um álbum desse tipo, com cerca de 40 desenhos relacionados com a Madeira e alguns de outras localidades estrangeiras. Desconhece-se o seu autor e a sua datação aproximada, entre 1800 e 1830, é possível graças à indumentária das personagens urbanas que figuram em determinadas aguarelas. Algumas paisagens, aspetos da vivência local, das habitações, dos trajes populares, dos transportes são os principais assuntos retratados.
Esta cena representa o que parece ser um cortejo fúnebre a passar numa zona central da cidade. Tem como fundo as frentes irregulares dos edifícios, uns térreos, outros de um, dois ou mais pisos, com as suas janelas, varandas ou balcões de madeira e telhados semeados de pedras, para prevenir que as telhas fossem levadas pelo vento. Na rua, pavimentada com grandes pedras roladas, passa o cortejo encabeçado pelos frades que levam os estandartes e o turíbulo fumegante, seguindo-se o esquife do defunto com os seus carregadores e alguns populares. Dois homens, um militar e um civil, de costas e cabeça descoberta, em sinal de respeito, observam o grupo que passa. Os restantes distribuem-se pela rua, alguns usando o traje tradicional, botas, calção e camisa de linho branca, ou saia listada, lenço e carapuça, como o homem que carrega ao ombro a vara com dois peixes pendurados, ou a mulher que cata piolhos a uma criança acocorada a seus pés. Os outros conversam ou parecem pedir esmola, indiferentes ao que se passa. É precisamente essa indiferença, o facto dos estandartes se levarem erguidos e as varandas se apresentarem vazias, sem espetadores, que leva a crer tratar-se de um funeral e não da procissão do Enterro do Senhor. Ocasião mais solene que com certeza envolveria outro cerimonial, maior devoção e recolhimento por parte da população local. Na realidade até cerca de 1835, os enterramentos tinham lugar dentro dos recintos sagrados das igrejas e capelas, sendo provável que nos casos de menos posses os cortejos seguissem a pé e não houvessem caixões.

A aguarela é o meio ideal para a pintura rápida de um apontamento de passagem. Os pigmentos usados possuem grão fino e podem ter diversas origens, sendo muitos derivados de substâncias minerais e de plantas às quais se juntam um elemento aglutinador solúvel na água e uma matéria para aumentar a sua flexibilidade. As primeiras aguarelas não tinham resistência à luz, mas a partir do século 18, com a adição de corantes químicos, as cores passaram a ter maior durabilidade, tratando-se sempre, de pinturas mais frágeis quando comparadas com outras técnicas. Consoante a quantidade de água e de pigmento misturado, as cores obtidas podem ser suaves ou intensas, devendo iniciar-se a pintura pelas cores mais claras, deixando por pintar as zonas onde se pretende dar a ilusão de luminosidade ou aquelas que se querem brancas, seguindo-se gradualmente para as mais escuras. A transparência é uma das principais características desta técnica. O traço à pena pode ser realizando antes da pintura ou depois, como parece ser este o caso, onde a presença do traço negro é bem notória.

Créditos: Casa-Museu Frederico de Freitas

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