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Cerâmica siliciosa, moldada e pintada sob vidrado.
Irão, dinastia Qajar, 1865-85.
Se há uma cor que se associa à Pérsia, atual Irão, é precisamente o AZUL. Está relacionada com o cobalto, pigmento raro e dispendioso extraído das minas persas de Caxã, usado nas manufaturas do vidro e cerâmica e exportado para a China, a partir do século 14, para colorir de azul as brancas porcelanas. É um azul vibrante que encanta, tal como o tom usado nestes dois azulejos.
Azulejos moldados com decoração figurativa pintada sob vidrado. Retratam cenas de caça, com archeiros montados sobre cavalos brancos, a perseguir javalis. Os homens de turbante na cabeça, trajam uma veste interior longa, casaco curto, um deles aberto e debruado a pele e o outro fechado com alamares, cintos, calças e botas pelo joelho. Apresentam-se com o tronco voltado para a esquerda, olhando para trás, com o arco esticado entre as mãos. Abaixo, correndo a par dos corcéis a galope, dois javalis em fuga. O fundo é azul, semeado de plantas e flores, com alguns edifícios ao longe, no canto superior esquerdo, e montanhas no lado oposto.
A composição é delineada e pintada, sobre a base branca, com diversas cores obtidas a partir de pigmentos minerais e metálicos. O cobalto era utilizado para o azul, o manganês para o arroxeado, o cobre para o verde, o antimónio ou o ferro para o amarelo e o crómio para o preto. O contorno a preto era um passo fundamental para acentuar a definição do desenho, uma vez que as cores podiam escorrer um pouco no vidrado durante a cozedura.
A cerâmica siliciosa destes azulejos, era um material usado no Egito, na Síria e no Irão desde o século 12 e resultava de uma pasta obtida a partir do quartzo e vidro, moídos, misturados com uma argila branca, muito fina. Mais clara, compacta e resistente que o barro tradicional, a sua origem prende-se com as tentativas de igualar as qualidades únicas da porcelana chinesa, cuja brancura e brilho não tinham rival. Apesar de diferente, esta pasta representou uma grande evolução, pelas suas qualidades de resistência e maleabilidade, sendo possível moldá-la nas mais diversas formas e servindo de base ideal à pintura aplicada diretamente ou sobre uma fina camada de engobe branco. Nesse campo oferecia grandes possibilidades decorativas, sobretudo após a adoção do vidrado transparente alcalino que garantia a estabilidade dos pigmentos coloridos usados na pintura sob vidrado, para além de conferir um brilho e impermeabilidade, extras. A cerâmica siliciosa decorada com pintura sob vidrado era preferencialmente usada na azulejaria e na cerâmica de luxo dos povos islâmicos do Médio Oriente, primeiro no Irão onde o seu uso se prolonga pelos séculos 19 e 20, no Egito e na Síria a partir do século 15, e na Turquia na célebre cerâmica de Iznik, cujo apogeu acontece no século 16.
A partir de meados do século 18 e durante a dinastia Qajar (1779- 1924) assiste-se no Irão a um período de relativa paz que levou à construção de novos edifícios e palácios, o que significou um novo alento para a indústria dos azulejos. Essa produção centrada em Teerão e Isfaão, inspira-se em modelos anteriores, nomeadamente de tradição Safávida, a dinastia reinante entre os anos de 1501-1732, que utilizava a representação figurativa, de personagens enquadradas em paisagens, muitas a cavalo, cenas da corte, banquetes e temas épicos da literatura e da poesia. Está também associada ao aparecimento de uma nova cor, o rosa.
Na segunda metade do século 19, muitos destes azulejos, extremamente decorativos e apreciados pela sua temática, apuro técnico, pintura delicada e cores apelativas, para além de se destinarem ao consumo interno, também eram escoados para o estrangeiro, através de encomendas e compras de exemplares isolados, recordações adquiridas por visitantes ingleses de passagem pelo Irão. Na Inglaterra, muitos foram aplicados em fogões de sala de casas de campo, outros integram hoje coleções de museus, como o Victoria and Albert Museum ou o British Museum, de Londres.
Créditos: Casa-Museu Frederico de Freitas
 
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