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Salva redonda com pé alteado, de prata dourada, relevada, repuxada e incisa, com motivos alusivos aos Sete Pecados Capitais.

Apesar de não terem consagração bíblica os Sete Pecados parecem ter sido descritos primeiro, pelo monge grego Evagrius Ponticus (345-399). Segundo o mesmo, os pecados agravam-se quanto maior era o egocentrismo. No século VI, o Papa Gregório Magno estabeleceu uma hierarquia de pecados capitais, realizando alguns ajustamentos: Orgulho, Inveja, Ira, Melancolia, Avareza, Gula, Luxúria. São Tomás de Aquino (1225-1274) realizou também estudos sobre o tema e no século XVII, a Igreja substituiu definitivamente a Melancolia pela Preguiça, já antes usada.

Hieronimus Bosch realizou importante representação dos Sete Pecados Capitais, no final do século XV, recorrendo à forma circular, alusão clara ao egocentrismo como fator de agravamento dos pecados, exemplar hoje no Museu do Prado, comprado por Filipe II de Espanha para o Escorial, em 1574.

Este tipo de obra de ourivesaria, é consequência do Portugal nascido com a expansão marítima e com a grandeza do reinado de D. Manuel I. A Arte Manuelina, ela própria, é resultado da situação particular da história portuguesa, presa a valores formais que vêm do gótico-final europeu e de como as suas caraterísticas são filtradas no contexto nacional. Se a ourivesaria reflete o formulário arquitetónico, ele também foi, por vezes, ensaiado no contexto da miniaturização, que a ourivesaria representava enquanto maquetismo.

As ilustrações da “Leitura Nova”, iniciada em 1504 com D. Manuel I, até 1552, em tempo de D. João III, serão um verdadeiro laboratório dos elementos decorativos e o exemplo acabado da filtragem nacional das gramáticas decorativas europeias, depois aplicadas a outras artes.

Uma motivação renascentista, todo um repertório ornamental clássico, retirado dos modelos ao romano, por via direta, ou através dos modelos flamengos e espanhóis, fazem a sua aparição no início da segunda década do século XVI, apesar das suas obras permanecerem fundamentalmente góticas na sua estrutura.

«[...] Os ourives vão “largando” nas suas obras motivos como “grotescos”, candelabros, medalhões com cabeças de perfil, nichos canelados, pilastras, arcos de volta perfeita, troféus e folhas de acanto [...]» (Nuno Vassallo e Silva in “Ourivesaria do Período Manuelino e a Transição para o Renascimento, O Vocabulário Clássico, Inovações e Resistências”, História da Arte Portuguesa, Vol. II, Lisboa, 1995).

A salva do Museu Quinta das Cruzes foi atribuída por Pedro Dias a uma oficina de Lisboa de meados do século XVI (in “Feitorias, L’Art au temps des Grandes Découvertes”, Europália, 1991 [cat 148]).

Fonte: “Obras de Referência dos Museus da Madeira, 500 anos de História de um Arquipélago”; SRE/DRAC/DSM; 2009. [entrada de catálogo nº. 16].

Créditos: Museu Quinta das Cruzes

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Salva com pé | Ourivesaria Portuguesa | Primeira metade do século XVI, c. 1520-30 | Prata dourada relevada, repuxada, cinzelada e incisa | D. 21,6 x A. 8,3 cm | MQC 1626

©PedroClode2009

 

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No círculo exterior da salva do Museu Quinta das Cruzes, separados por colunelos ou balaustres, sequencia-se a descrição ilustrada dos pecados, em motivos relevados.

A “Inveja” é representada por figura feminina ladeada por dois símios, a “Preguiça”, através de um homem adormecido que repousa sobre um burro, com árvores ao fundo.

A “Soberba” por um homem altivo, coroado, montado num dragão e torre ao fundo, a “Avareza” por um homem segurando na frente com uma mão uma arca fechada e com a outra prende as chaves, sobre fundo com elementos arquitetónicos.
A “Luxúria” é representada através de uma figura feminina, sentada sobre um suíno, observando-se ao espelho, com um fundo de árvores.
A “Ira” é descrita por homem por detrás de uma mesa, agitando com braço direito uma carta, tendo por companhia dois animais.
A “Gula” é descrita por uma figura feminina, frente a uma mesa com vários atavios culinários, como vasos, faca e jarros.

©PedroClode2009

 

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A salva do Museu Quinta das Cruzes tem ao centro, em medalhão circular, de sabor renascentista, com a figura relevada de Lucrécia, posta a três quartos, com cabelos esvoaçantes e apanhados por fita, segurando com mão esquerda um punhal, levantando a direita com a palma da mão aberta.

Lucrécia a bela e casta, símbolo do sacrifício pelas virtudes, já casada com influente aristocrata, Lúcio Colatino, é forçada ao adultério por Sexto Tarquínio. Confessa ao marido a sua desonra e suicida-se com punhal.

Este gesto leva à rebelião em Roma e à instalação da República, segundo Tito Lívio no final do livro I da sua História de Roma (1999).

O medalhão central é emoldurado por mascarões grotescos, com esgar insólito e demoníaco, de bocas abertas e longos bigodes, alternando orelhas pontiagudas e em forma de argola.
Este aro circular que envolve a representação central é também emoldurado pela legenda incisa com a designação dos Sete Pecados Capitais:
EMVEJA/PERGVICA/SOBERBA/AVAREZA/LVXVRIA/IRA/GVLA.

©PedroClode2009