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O Museu Quinta das Cruzes possui um núcleo de mobiliário dito “caixa de açúcar”, datado do século XVII e que integra várias tipologias, como armários de um e dois corpos, arcas, e cantoneiras que se traduzem, na sua maioria, em armários copeiros utilizados para o armazenamento de loiça e comida.

Os móveis “caixa de açúcar” do Museu Quinta das Cruzes, foram estudados por Lília Esteves em contexto de estágio no Instituto José de Figueiredo em 1999, que identificou algumas das suas madeiras, concluindo que o mobiliário designado como “caixa de açúcar” é constituído essencialmente por madeiras tropicais brasileiras, jequitibá, imbuía, canela, itaúba e tapinhoa, algumas delas comprovadamente utilizadas no fabrico dos contentores exportados do Brasil.

Com a Extinção das Ordens Religiosas e dos seus conventos (1834), e a posterior aplicação da Lei de Separação da Igreja do Estado (1911), muito do mobiliário aí existente, entrou na posse de particulares, através da sua venda em hasta pública. Neste caso em particular, os dois armários aqui apresentados são provenientes da doação inicial de César Filipe Gomes, aquando da fundação deste museu em 1946.

O aparecimento do mobiliário dito “caixa-de-açúcar” está intimamente ligado com o declínio do ciclo económico do açúcar na Ilha da Madeira, em meados do século XVI, motivado, sobretudo, pela crescente produção nas ilhas de São Tomé e Príncipe (iniciada em 1493) e, mais tarde, no Brasil que acabou por se tornar no principal exportador para o mercado europeu.

O “ouro branco” brasileiro era acondicionado e transportado em caixas executadas com tábuas de madeira de juntas sobrepostas, transformando-se numa estrutura resistente que mantinha a qualidade dos pães de açúcar nas viagens marítimas até ao seu destino europeu.

Os marceneiros madeirenses, na tentativa de ultrapassarem a escassez de madeira na Ilha, reaproveitaram as madeiras das referidas caixas na construção de mobiliário dito “caixa de açúcar” em referência à origem do material utilizado para a sua confeção, onde as madeiras regionais são utilizadas na estrutura, mas cobertas por madeiras exóticas provenientes do Brasil. Esta produção é filiada nos modelos holandeses divulgados em Portugal, no final do século XVI, quer através da circulação de gravuras de gravuras. Esta produção não foi exclusiva da Ilha da Madeira, havendo documentados exemplares semelhantes em Lisboa e Açores.

Créditos: Museu Quinta das Cruzes

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Armário “caixa de açúcar” | Oficina madeirense | século XVII | Imbuía, faveira e ferro | A. 106 x L. 144,2 x P. 52 cm | MQC 845 | © Pedro Clode, 2009

Armário de um só corpo, proveniente do Convento de Santa Clara que apresenta duas portas almofadadas, formadas por molduras retangulares que terminam em ponta de diamante. Na frente, possui ainda um ferrolho em forma de “T”, e espelho de fechadura em ferro forjado. Também as bisagras, de recortes flordelizados são em ferro forjado.

“Obras de Referência dos Museus da Madeira, 500 anos de História de um Arquipélago”; SRE/DRAC/DSM; 2009. [entrada de catálogo nº. 57]

 

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Armário “caixa de açúcar” | Oficina madeirense | século XVII | castanho, imbuía, jequitibá e ferro | A. 206 x L. 158 x P. 72 cm | MQC 839 | © Pedro Clode, 2009

Armário “Caixa de açúcar” com portas seccionadas em almofadas e, ordem de gavetas na separação dos dois corpos. As portas são guarnecidas por ferrolhos em ferro forjado em forma de “T”, e bisagras de recorte flordelizado também em ferro.

“Obras de Referência dos Museus da Madeira, 500 anos de História de um Arquipélago”; SRE/DRAC/DSM; 2009. [entrada de catálogo nº. 58]

 

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No interior do corpo superior possui três prateleiras, decoradas com frisos rendilhados, sendo as inferiores corridas e a superior recortada. O interior do corpo inferior possui uma prateleira corrida também decorada com friso rendilhado. Esta peça pertenceu ao Convento de Santa Clara no Funchal.

“Obras de Referência dos Museus da Madeira, 500 anos de História de um Arquipélago”; SRE/DRAC/DSM; 2009. [entrada de catálogo nº. 58]