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Não se conhece a data da fundação e edificação da Capela das Neves, como é vulgarmente designada, mas aqui teve início a freguesia de São Gonçalo, criada a partir de Santa Maria Maior, desde 1558, servindo esta ermida de igreja paroquial até princípios do século XVIII. No século XV é já referida a toponímia de Santa Maria das Neves, nas posturas da Câmara Municipal do Funchal, e a 9 de fevereiro de 1565, o bispo D. Jorge de Lemos criou esta freguesia. Em 1574 foi constituída paróquia com orago da Senhora das Neves. Foi saqueada, em 1566, pelos piratas franceses.
Deve-se, possivelmente, a instituição da Capela das Neves a Catarina Pires (ou Sá), que faleceu em 1536, mas que em 1510 tinha já instituído uma capela de missas nesta ermida. Era mulher do povoador João Afonso Mialheiro, possuidor de várias terras de sesmarias, tendo os Mialheiros passado à Ilha da Madeira por volta de 1500, e irmã de Leonor Ribeiro, esposa de Manuel Afonso Sanha, escudeiro do infante D. Fernando. Mais tarde, por dívidas à coroa, comprou a propriedade da Capela das Neves Lopo Machado de Goes, natural de Guimarães, que tirou brasão de armas em 1537, casado com Maria Luís, família nobre e abastada, proprietária de terras de cultivo e escravos, cujos varões exerceram cargos na câmara do Funchal. Em 1796 era administrador da capela e do seu morgadio o mestre de campo Luís Vicente de Carvalhal Esmeraldo Vasconcelos Bettencourt Sá Machado e no século XIX John Burden Blandy, comerciante inglês, adquiriu as propriedades ao 2º. conde de Carvalhal, tendo realizado uma campanha de obras na ermida, em 1900.
O adro, com três carvalhos, é largo e em forma semicircular, que acompanha a orografia do terreno, sendo totalmente calcetado com calhau rolado em decoração geométrica. Da antiga construção restam a base da cruz de cantaria, colocada sobre a empena; o primitivo pórtico gótico, hoje no interior do templo, de arco quebrado, de traça manuelina, executado em cantaria basáltica da ilha, sendo visíveis marcas de pedreiro; o arco triunfal de pleno centro, executado em cantaria vermelha regional, que antecede a capela-mor; e o lajeamento.
Destaca-se do seu património o retábulo-mor, de talha policromada, evidenciando gosto maneirista, bem anotado na estrutura retabular e nas figuras de anjos de corpos torcidos e angulosos. Infelizmente encontra-se um pouco descaracterizado pelos efeitos de marmoreados (escaiola), de gosto oitocentista.
No centro do retábulo-mor encontra-se a primitiva pintura, “Procissão de Nossa Senhora das Neves”, óleo sobre madeira, datada de cerca de 1590. Está atribuída a Fernão Gomes (c.1548-1612), pintor maneirista, natural de Castela, com passagem por Portugal (Lisboa) e Holanda (Delft). Um restauro recente, pelo atelier Isopo, permite observar agora as figuras, paisagens e cromatismos originais.
Duas telas, de finais do século XVII ou já dos princípios do século XVIII, de oficina regional, revelam fatura ingénua e popular, seguidoras da linguagem tenebrista bem ao gosto da estética barroca. Desconhece-se a sua origem primitiva. Representam a “Última Ceia” e “Cristo levado pelos soldados romanos à presença de Pôncio Pilatos”.
A capela das Neves está classificada, desde 1994, como imóvel de interesse municipal. É pertença da Diocese do Funchal por doação da família Blandy.


Texto: Rita Rodrigues


Fotos: DRC, RR e ISOPO

Créditos: Direção de Serviços de Museus e Património Cultural

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