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No âmbito do projeto desenvolvido no museu e do qual resultou uma exposição temporária e a edição, em 2019, do livro “Festas e Romarias da Madeira” (Nº3 da nossa coleção “Cadernos de Campo”), decidimos partilhar, nas nossas páginas das Redes Sociais (Facebook e Instagram) diferentes álbuns, com algumas imagens, que fazem parte dessa obra. Iremos percorrer todos os concelhos e divulgar diferentes festas, procurando assinalar alguns aspetos que as caraterizam.
Poderá encontrar mais informação sobre esta e outras festas no Portal dos Museus, ou, quando tudo regressar à normalidade, poderá consultar o livro, que está disponível nas lojas do museu e da Direção Regional da Cultura.
Esta semana, divulgamos a Festa de Nossa Senhora da Piedade, que se celebra na freguesia do Caniçal, concelho de Machico, com uma caracteristica procissão por mar. 
Em todas as paróquias celebram-se festas religiosas ou romarias, consagradas a Deus, ao Espírito Santo, a Nossa Senhora e aos santos, representados por uma relíquia ou por uma imagem. Distinguem-se das outras festas religiosas pelo caráter de “peregrinação”, do percurso efetuado pelo povo até o local do santuário, antigamente a pé, por caminhos íngremes e atalhos.
Normalmente estas festas realizam-se aos fins-de-semana e têm origem numa lenda, ou foram introduzidas pelos primeiros colonizadores, pois estes trouxeram consigo os seus santos de devoção, tornando-os santos protetores de uma determinada localidade.
As festas têm caraterísticas sagradas e profanas. Umas e outras são a face e o verso da mesma moeda.
De entre os rituais sagrados temos a celebração das novenas (nove missas, que se realizam diariamente, antes do dia da entidade que está a ser festejada), as confissões, a missa e a procissão. Dentro da igreja, o povo beija, usualmente, o santo “festeiro”, numa espécie de bênção propiciatória, simbolizando a aceitação do seu poder milagroso e os fiéis cumprem e fazem promessas, protegendo a sua vida quotidiana.
A festa também contempla a parte profana, ou seja o “arraial”, como é popularmente conhecido. É o espaço onde se dança, canta, come, realizam-se trocas comerciais, namora-se, etc.
Nesses dias, a igreja e arredores estão decorados com plantas, nomeadamente o louro, a murta, o buxo e a giesta, luzes, flores e bandeiras.
Uma ou mais bandas de música tocam pelas ruas, fazendo intervalos coincidentes com os grupos musicais e folclóricos. Também existem grupos de tocadores improvisados, que alternam entre si um mote, ou que cantam ao desafio (despiques), ao som do reco-reco, das castanholas, da harmónica, do brinquinho, do acordeão e dos instrumentos de corda: rajão, braguinha e viola de arame.
Nossa Senhora da Piedade - Caniçal.
Desde tempos remotos que os portugueses prestam culto a Nossa Senhora da Piedade. É normalmente apresentada ao pé da Cruz e com Jesus morto no seu regaço, transparecendo as dores de uma mãe junto ao seu filho morto.
Na Madeira, a devoção à N. Senhora da Piedade remonta ao início da colonização. Apesar de não ser a padroeira do Caniçal, freguesia de Machico, a sua festa, comemorada no terceiro fim-de-semana de setembro, atrai mais pessoas a esta localidade do que a do de São Sebastião, padroeiro do Caniçal.
A sua capela, construída no séc. XVII, encontra-se localizada no alto do monte Gordo ou da Piedade, a cerca de quatro quilómetros da Igreja Paroquial.
Segundo a tradição popular, a construção da capela deve-se a uma promessa de um grupo de marinheiros que, vendo o seu navio prestes a despedaçar-se contra as rochas da costa, prometeram construir uma ermida dedicada a Nossa Senhora. A procissão tem início por terra, sendo depois seguida de um itinerário pelo mar, até à ermida.
Muitas festas religiosas estão a cargo dos pescadores, nomeadamente a festa de Nossa Senhora da Piedade no Caniçal. Durante todo o ano, colocam de parte verbas provenientes da venda do pescado, para financiar esta romaria. Por vezes, alguns fiéis oferecem dinheiro para a festa, assumindo o papel de “festeiros”. Ainda existe um grupo de pessoas (homens e mulheres), provenientes de vários sítios, os “romeiros”, trajados de marinheiros, que fazem oferendas (dinheiro, bordados, flores, objetos utilitários, “gaiados”, produtos da terra, doces) que são depois arrematadas, revertendo a receita para a festa.
Uns dias antes da festa, entre os arrais dos barcos de grandes dimensões, é feito o sorteio do barco que irá transportar a imagem (o barco bento).
No sábado, a partir das 15 horas, o padre, os Irmãos da Confraria, a banda e fiéis saem da Igreja Paroquial e dirigem-se até ao cais, onde estão ancorados os barcos. Na embarcação sorteada vai o arrais, a banda, o padre, os Irmãos da Confraria, os homens que levam o andor e alguns fiéis, dirigindo-se para a capela, localizada no Monte da Piedade, onde se encontra a imagem de Nossa Senhora. Os restantes barcos apinhados de gente, enfeitados com bandeiras e folhas de palmeira, seguem-no enfileirados em direção à capela. Os armadores disponibilizaram as embarcações para quem quiser participar, sendo gratuita a viagem.
Passados alguns minutos desembarcam no cais da Quinta do Lorde e sobem um íngreme caminho até à capela. À entrada do templo, a banda toca o hino de Nossa Senhora e depois acompanha os cânticos religiosos, entoados pelos devotos. Em seguida ornamentam a imagem com o ouro proveniente de graças obtidas e colocam-na num andor, que é sempre transportado por homens, em cumprimento de promessas.
Algumas pessoas continuam nos barcos, aproveitando para dar um passeio até ao extremo da ilha e são servidas sandes de atum ou “gaiado” e bebidas. Passado um tempo, o barco volta para recolher a procissão, com a imagem de N. Senhora e iniciam o trajeto de regresso à vila.
De vez em quando a banda toca. A imagem é sempre colocada com o rosto virado em direção à sua capela.
Depois do desembarque, a procissão dirige-se para a Igreja Matriz, onde tem lugar uma missa. Após a celebração, formam-se filas de crentes para beijarem a imagem e fazerem as suas promessas.
De noite decorrem os divertimentos típicos do arraial.
No início da tarde do dia seguinte, terminada a missa, sai de novo a procissão marítima, para fazer o percurso inverso, devolvendo a imagem à sua capela, mas desta vez com o rostovirado para o Caniçal, para lançar a sua bênção sobre a terra e sobre seus habitantes.

Créditos: Museu Etnográfco da Madeira.

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Procissão de Nossa Senhora da Piedade
Óleo s/tela
Eduardo Freitas
2000

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