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Martha da Cunha Telles nasceu no Funchal em 1930, no seio de uma família tradicional, filha de Alexandre da Cunha Telles, advogado, e de Anne Kristine Stephanie Wera Beranger Cohen, dinamarquesa, cantora lírica e professora de canto, que estudou em Paris. A família tinha residência no Funchal, na Rua da Carreira n.º 188, palacete urbano destruído para dar lugar à atual Residencial Colombo.

Iniciou a sua aprendizagem no campo da pintura com Max Römer, ingressando posteriormente no curso de pintura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1963 e 1965, em Paris, onde estudou pintura sob a orientação de Maria Helena Vieira da Silva, na Sorbonne estudou Sociologia da Arte. Em 1968, parte para o Canadá onde continuou os seus estudos, concluindo o Curso em Artes Plásticas na Universidade do Quebec. Anos depois naturaliza-se canadiana. Regressa a Portugal em 1983, mantendo a dupla nacionalidade.
A pintura desta madeirense é, na sua grande maioria, um profundo registo da sua própria vivência insular, um regresso à infância e adolescência, marcadas pela presença tutelar de um avô general, a mãe cantora, os irmãos, as viagens, a morte e os seus lutos, os jardins de buxo da sua quinta no Monte, circunstâncias que impressionaram Agustina Bessa Luís que, na obra Martha Telles - O castelo onde irás e não voltarás (1986), observou “(...)Para Martha, a casa do Monte era como esse castelo que no verão se enchia de risos e de projetos alimentados pela tradição familiar. As três irmãs, Otília, Louise, Eugénia, tendo no encalço o pequeno António em que transbordam os afectos, parecem pertencer a um elenco do Bergman. Não sei como o irmão da Martha, que se fez cineasta, nunca se lembrou disso. A própria pintura da Martha é bergamaniana. Embora a descrevam como figurativa abstrata (assim disse Vieira da Silva, que a orientou nos tempos de Paris), embora ela própria se intitule uma realista mágica, eu vejo a performance dum Bergman nos seus quadros. Primeiro o acontecimento onírico que tudo arrasta, tanto das casas como das tumbas, com um formidável apelo de ressurreição; depois a tentativa de seduzir o tempo, captando-o como um vasto e inofensivo corpo celeste em que giram as paixões e os destinos sem, contudo, conter a morte como elemento dispersador. A morte aglutina, não dispersa.”
Para Martha Telles, a sua pintura “ é uma linguagem do silêncio”, perceção reafirmada por Maria Antónia Fiadeiro, no texto que lhe dedicou em 1984, nas páginas do Jornal das Letras, a propósito da sua exposição na Fundação Calouste Gulbenkian: “O silêncio é preciso para olhar a sua pintura e mais do que nunca se entende que nenhuma imagem dispense a leitura. Toca-se no inconsciente. Há uma grande inquietação e uma grande quietude neste deslumbramento que, muitas vezes, assenta num banal registo do quotidiano, numa trivial cena familiar.”
Infelizmente, Martha Telles é ainda desconhecida do grande público, apesar do seu vasto currículo, e das inúmeras exposições que fez ou de estar representada em várias coleções privadas e públicas da Europa e Canada, país que lhe deu dupla nacionalidade.
Morre em 2011, no Estoril.
Créditos: MUDAS.Museu de Arte Contemporânea da Madeira.

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