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Que o Baile da Meia Volta é a mais antiga referência musical e cultural do Porto Santo. É também, enquanto género tradicional, e poucos o sabem, anterior ao Charamba, Mourisca e Bailinho da Ilha da Madeira. Único no seu todo, combina uma parte instrumental e uma dança, que evolui à voz do Mandador (que toca a Viola de Arame e integra a própria dança). Os músicos colocam-se no centro da roda (Rabeca, Rajão e Braguinha). A Rabeca é o outro instrumento em destaque, na renovação do tema melódico, nos contracantos à voz (dos Cantadores, geralmente um homem e uma mulher que cantam alternadamente) e nos ''solos'' que ao longo dos tempos mostravam as capacidades musicais dos rabequistas. O Baile da Meia Volta, musicalmente falando, está num Modo (Modo Frígio Trovadoresco ou Modo de Mi, muito utilizado no Mediterrâneo e Península Ibérica) e não numa Escala (maior e menor dos restantes géneros tradicionais do Arquipélago da Madeira) o que nos remete para tempos muito antigos. O Baile esteve sempre presente nas festas particulares, casamentos, receções de altos dignitários do poder ou da Igreja e, a partir do séc. XIX, foi-se organizando enquanto acontecimento recreativo e social. Aos sábados à noite ou aos domingos à tarde, pelos diferentes sítios da pequena ilha (Campo de Baixo, Ponta, Camacha e Serra de Fora) o Baile da Meia Volta era o motivo do encontro. «Hoje há Viola!» anunciava-se de boca em boca, tanto o evento como o sítio da sua realização. O local mais apropriado para a execução da dança era a eira, pois afigurava-se perfeita à coreografia dos bailadores, a disposição em roda. Nas festas de casamento o Baile da Meia Volta também estava presente, mas neste caso realizava-se dentro de casa, no pátio ou no terreiro. Estes momentos de convívio tinham a participação de todos: novos e velhos, ricos e pobres, rapazes e raparigas, locais e visitantes. Um passatempo, onde a poesia improvisada, a música, a dança e as vozes, masculina e feminina, davam o mote para um momento de confraternização único. Tudo começava pelo Mandador, escolhido e reconhecido por todos como o mais indicado e capaz para dirigir o Baile. Ali não contava o estatuto social e a riqueza. À voz do Mandador tudo acontecia, sendo ele o primeiro a marcar o ritmo na viola de arame seguido da Rabeca que iniciava a melodia. Chamava-se então para a roda os homens e depois as senhoras. Um bom Mandador tinha a perspicácia de acabar o Baile geralmente no seu auge, não cansando os bailadores. Após um intervalo (para comer, beber e conversar) o Mandador iniciava outra ''roda'' ou ''viola'' sendo também costume evoluir, ao longo da noite, para outros bailes da tradição do Porto Santo como por exemplo o Baile do Ladrão, o Baile Sério, a Padeirinha e a Ciranda. Estas noites de convívio, nas quais o Baile da Meia Volta, era o principal género tradicional em execução, terminavam geralmente com a Retirada, um despique na forma de Bailinho, género comum à Ilha da Madeira.

Ao longo do século XX foram realizadas muitas recolhas e estudos sobre este peculiar género tradicional insular. Músicos, etnógrafos e musicólogos registaram as suas experiências de campo e entrevistas a informantes locais, transcrevendo também para a pauta musical as melodias e os contracantos do Baile. Das investigações existentes salientamos (nesta pequena síntese) alguns autores: Francisco de Lacerda (1932), Carlos Maria dos Santos (final da década de 30), Eduardo C.N. Pereira (1957), Artur Andrade e António Aragão(1972) e Anne Caufriez (1982), sendo esta última a mais aprofundada (alicerçada que está em registos áudio editados em disco, com ''booklet'' de 28 páginas anotadas pela própria investigadora). Para o maestro e compositor Francisco de Lacerda, que visitou a Ilha do Porto Santo em 1932, «As canções da Ilha do Porto Santo são consideravelmente mais interessantes do que as da sua vizinha Ilha da Madeira. Além de serem, melodicamente mais variadas e musicais, são instrumentalmente, muitíssimo mais ricas, oferecendo exemplos notáveis da intervenção dos instrumentos nos seus prelúdios, interlúdios e finais.» Acrescentou ainda: «A Canção e Dança da Meia Volta constitui um estranho problema, difícil ou impossível de resolver no que diz respeito à modalidade em que é executada. Algumas afinidades com certas canções espanholas e das Canárias, não explicam, ainda assim, a sua singularidade como canção portuguesa.» (Cadernos 1934, revisitados recentemente pelas Edições Colibri (1993) - Francisco de Lacerda «Folclore da Madeira e Porto Santo»).
Também para Anne Caufriez, musicóloga, a música tradicional e a cultura do Porto Santo foram objeto de pesquisa e recolha ao longo de três meses de residência na Ilha, no ano de 1982. A propósito das gravações que realizou escreveu: «La musique de Porto Santo traduit un syncrétisme original qui est un peu le reflet de son histoire. Elle révèle à la fois des répertoires d'origine portugaise et d'autres marqués par l'influence maghrébine.» A sua investigação escrita foi apresentada em 1985 com o título “Introdução às tradições populares da Ilha do Porto Santo” (Arquipélago da Madeira), in Colóquio-Artes, n ° 65, Lisboa. Em 2000, contribuiu com uma segunda pesquisa: “A balada no Arquipélago da Madeira, Ilha de Porto Santo” (Encontros, Património, n ° 4, Lisboa). Do seu trabalho de campo resultou um CD, gravado com a colaboração de Michel Plumley. O registo tem 13 temas e está à guarda do Arquivo Internacional do Museu de Etnografia de Genebra (Archives internationales de musiques populaire, Genève, Suisse; VDE-GALLO CD -1348) 2011. A gravação original (1982) registou os seguintes músicos populares da Ilha do Porto Santo: Manuel Alexandre Melim (Rabeca), Laurindo José Melim (Viola de Arame), Manuel Avelino Melim (Rajão), José Gabriel Dias (Viola de Arame), José Gusmão da Silva (Rabeca), Manuel João de Deus (Braguinha) e Manuel José Soares (Viola de Arame).
O Baile da Meia Volta, enquanto Marca de Identidade do Povo e da Cultura da Ilha do Porto Santo, deve merecer a atenção de todos na sua preservação e divulgação.
 
 

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Baile da Meia Volta Grupo de Folclore do Porto Santo

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Baile da Meia Volta - recolha de Artur Andrade e António Aragão 1972

 
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Folclore da Madeira e Porto Santo Francisco de Lacerda
 
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Francisco de Lacerda
 

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CD Recolhas de Anne Caufriez Porto Santo 1982
 

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Anne Caufriez
 

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Os dois instrumentos ''obrigatórios'' para a realização do Baile da Meia Volta Rabeca (violino) - Manuel Vasconcelos e Viola de Arame - Luís Rodrigues