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Uma das mais antigas menções sobre música ao vivo nos hotéis do Funchal, com carácter regular, surge no Diário da Madeira de 21 de fevereiro de 1922 e refere-se ao «Quarteto do Hotel Savoy». No mesmo periódico, mas na edição de 3 de novembro de 1932, uma outra diz respeito ao «Quarteto do Hotel Reid's Palace», dirigido este pelo violinista Álvaro Sequeira. A Música nos anos 20 e 30 passaria nalguns hotéis a ser executada diariamente. Foram os casos do Hotel Savoy e do Hotel Reid's Palace. Audição musical ao Chá e ao Jantar seguida depois, pela noite fora, numa componente mais direcionada para a música de dança. Os instrumentistas eram contratados a tempo inteiro, naquilo que passou a ser designado posteriormente por «Noites da Madeira». A cidade do Funchal tinha já vários espaços com música entre eles os Casinos: Pavão, Vigia, Victoria e Monumental, o Café Ritz, o Club dos Estrangeiros, o Salão Ideal, o Salão Central e o Pavilhão Paris, estes últimos associando os momentos musicais às sessões de cinema mudo. Diferentes grupos como o Sexteto Espanhol da Quinta Pavão, a Orquestra Belo-Monte tocavam nalguns destes estabelecimentos, mas essa atividade era desenvolvida de forma alternada e sazonal.
Porém, o fenómeno da música não se esgotava nestas sessões artísticas. Ao longo da década de 30, por influência dos viajantes que por cá passavam, o ''Som'' da América, entenda-se os géneros ''Music Hall'' e ''Jazz'' estavam em verdadeira expansão. Na Madeira a divulgação desta nova onda musical fazia-se também através dos discos importados ou comprados localmente. Existiam casas comerciais representantes das grandes editoras discográficas (MGM, Capitol Records, RCA, Master Voice), nas quais se poderiam obter os discos mais recentes para serem depois escutados nos ''gramofones''. Também a Rádio, sobretudo a inglesa (BBC), captada nas telefonias das pessoas mais abastadas, serviam de modelo inspirador. Era possível ouvir as grandes orquestras, os cantores mais famosos ou solistas da nova música. Os grupos musicais locais reproduziam todo este novo repertório de canções (ao seu modo, com algumas limitações), tanto nos bailes como nas festas que aconteciam pela cidade. As danças americanas como por exemplo: One Step, Quick Step, Fox Trot ou Charleston (entre outras) eram as mais dançadas, existindo várias escolas de dança de salão que ensinavam também os novos ritmos da América do Sul, neste caso Samba e Rumba. Os já referidos hotéis, os casinos, os cabarés ou ainda o Ateneu Comercial do Funchal realizavam bailes ao longo do ano. Muitas canções dos anos 20, 30 e 40 , sobretudo as mais conhecidas, serviam também como repertório artístico pelos conjuntos e orquestras nalguns dos espetáculos, muitos deles realizados no Teatro-Circo do Funchal. Era comum os grupos ajustarem duas componentes na sua prática, com o mesma seleção musical, no mesmo repertório: o espetáculo e o momento de dança. Curioso ainda o facto das orquestras madeirenses dos anos 30, utilizarem na sua denominação o novo género musical ''Jazz''. Por exemplo: «Orquestra Jazz de Manuel Vieira» (1932), «Orquestra Jazz Café Ritz» (1932), «Orquestra Jazz Amaral» (1933) ou «Orquestra Jazz Oceânia» (1933). Outras congéneres utilizavam também uma variante ''Jazz-Band'' como foi o caso da «Jazz-Band de Jacinto Baptista Santos» ou «Stangers Club Jazz - Band». Na mesma linha e porventura, o mesmo tipo de repertório, a «Abreu's Dancing Orchestra» dirigida pelo violinista Raul de Abreu, traduzia a função primordial e natureza musical do grupo a vertente ''música de dança''. Esta orquestra tocava no Casino Victoria e no Café Kit Cat, que se situava à entrada da cidade. local privilegiado no que ao turismo diz respeito. Na década de 30, estavam também em atividade a «Orquestra Jazz Silva» (1935), a «Orquestra de Jazz da Academia Musical Instrução e Recreio» (1936) e a «Orquestra Jazz Vanize Meireles» (1937). No início dos anos 40, os cabarés apresentavam os seus melhores executantes, destacando-se neste período os seguintes instrumentistas: Carlos Veríssimo, Luís Abreu, Amadeu Pestana, Carlos Freitas e João Camacho na «Orquestra Tivoli» e na «Orquestra Royal» os músicos Henrique José da Silva, Mário Cruz Gomes, Francisco Barros e António Rodrigues. O Hotel Bela Vista e o Hotel Miramar tinham também atividade musical regular. No caso do primeiro, o «Conjunto de Tony Amaral» com o cantor Max e Carlos Menezes desde 1943 (posteriormente entrariam José de Freitas e Barrinhos). O grupo inauguraria a Boate - Restaurante Flamingo, na Rua da Ribeira de São João em 1944, permanecendo nesse espaço até 1946. Na vizinha Rua dos Aranhas, no Solar da Dona Mécia o «Tino Cubanos», uma pequena orquestra orientada por Libertino Lopes (pianista) com Amadeu Pestana (clarinete, flauta transversal, Bandoneon e percussão) fazia o furor da noite com os ritmos latinos do Samba e da Rumba.
Em destaque (na sua oferta musical e contratação de músicos madeirenses), o Hotel Savoy que, a partir de 1949 integrou os Irmãos Freitas na «Orquestra Savoy». Neste caso um quinteto que era constituído por: Mário de Freitas, Rufino de Freitas, João de Freitas, Humberto de Jesus Abreu e Fernando Assunção Magno. Ainda no Hotel Savoy, iniciariam contrato em 1949 dois músicos ímpares do nosso panorama musical: Alberto Amaral (piano) e Juvenal Abreu (violino, violoncelo, bateria e percussão). A sua prática musical diária ao serviço do Hotel Savoy, prolongou-se por mais de 35 anos, em regime de exclusividade artística.

Pesquisa e Texto: @Vitor Sardinha

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Alberto Amaral

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 Editoras Musicais com representação na Madeira anos 30 e 40

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 Flamingo Papel Timbrado 1944

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 Juvenal Abreu

orquestrasemusicas4Hotel Savoy anos 40

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Kit Kat (2) Funchal anos 30

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 Orquestra Hotel Savoy Cine jardim 1949

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Raul de Abreu

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Tivoli Club anos 30