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Um dos grandes objetivos da Igreja é cuidar das almas dos seus fiéis, preparando-os na vida terrena, para que um dia após a morte, alcançarem o Céu, diretamente ou com uma passagem curta pelo Purgatório e nunca o Inferno. Cuidar da alma, entre outros aspetos, significava praticar o bem, orar e assistir aos atos de culto. 
As almas eram tão importantes que a Igreja, nos recenseamentos da população, assentava os adultos como “almas”. Por exemplo, na Madeira, em inícios do séc. XVIII existiam mais de “quarenta mil almas obrigadas aos sacramentos”. 
Sobretudo até ao século XIX, a população, consoante as suas posses económicas, deixava parte dos bens – os “bens d’Almas” – para satisfação de encargos pios, “coisa tão sagrada”, alguns com a obrigação de serem cumpridos durante muito tempo como então se registava – “enquanto o mundo durar”. 
Em todas as paróquias da Madeira existia a devoção às “Almas”, também conhecida por “Almas Santas”, “Almas do Purgatório”, “Almas dos Fiéis Defuntos” ou “Fiéis de Deus”. Esta devoção foi impulsionada na sequência das determinações do Concílio de Trento (1545 – 1563), organizada sempre em torno de um altar ou capela, através de uma confraria própria. Também existia esta devoção em capelas particulares, com oratórios ou altares. Pertencer à confraria das Almas trazia várias vantagens para os fiéis, ficando os irmãos da confraria obrigados a acompanharem no enterro os irmãos defuntos, com o pendão, cruz e círios, assim como dizerem missa e um ofício, para além de estar incluído no ofício geral dito por todos os irmãos confrades no dia das Almas. 
Desde o séc. XI, no dia 2 de novembro, Dia dos Fiéis Defuntos ou Dia de Finados, realiza-se a homenagem a todos os que já partiram, rezando os católicos pelas almas do purgatório, a fim de alcançarem o Céu. É tradição dos cristãos visitarem as campas dos familiares nos cemitérios e rezarem pelos mortos, embora o feriado do dia anterior, um de novembro, antecipe as visitas. A partir do século VIII, o papa Gregório III (731-742) adotou o dia um de novembro, para a comemoração da Festa de Todos-os-Santos, embora já remontasse ao séc. II esta prática. Este dia é, também, conhecido por Dia de Pão-por-Deus, denominação que deriva da tradição de nesse dia repartirem alimentos pelos mais pobres, os quais, por vezes, apenas pediam “pão, por Deus”. 
O Dia-de-Todos-os-Santos, além da parte religiosa, também foi e é festejado com uma gastronomia fora da habitual do dia-a-dia. Nos conventos masculinos da Madeira, no séc. XVIII e primeiras três décadas do séc. XIX, consumiam, entre outros produtos, carne de galinha e de carneiro, sonhos, queijos, doce e nozes. 

Texto: Paulo Ladeira/DRC.
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“São Miguel e as Almas” (pormenor). Nicolau Ferreira, 1800. Altar das Almas, Sé do Funchal.
Fotografia: Roberto Pereira/DRC