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É muito antiga a devoção dos madeirenses às «Almas do Purgatório», sendo comum a existência de confrarias das «Almas», dos «Fiéis de Deus» ou dos «Fiéis Defuntos», bem documentadas desde o século XVI, mas crê-se que a sua existência venha desde o tempo do povoamento. Destacam-se, por exemplo, a Confraria das Almas da Sé do Funchal, cuja instituição parece datar de 1572, sendo dinamizada e reativada, no século XVIII, pelo cónego Francisco Henriques, cuja devoção estava “morrendo” e “esfriando”, tendo obtido autorização a 6 de Fevereiro de 1713, pelo bispo D. José de Sousa Castelo Branco. Eram irmãos desta confraria figuras proeminentes da sociedade madeirense: nobres, fidalgos, homens da governança, mercadores, clérigos, boticários e estudantes, e algumas freiras, que traziam familiares, assistentes e criadas, mas também oficiais mecânicos: ourives, entalhadores, serralheiros, alfaiates, sapateiros, tanoeiros, calceteiros, armadores, cerieiros, vendeiros, surradores, e uma significativa presença de mulheres: parteiras, fanqueiras, vendedeiras, e apenas uma única escrava que deu entrada a 26 de novembro de 1751. Outra Confraria dos Fiéis de Deus, muito ativa, estava sediada na Igreja de São Pedro (Funchal), e era muito antiga, tendo sido novamente instituída, em 1610, por Manuel D´Amil, Provedor dos Defuntos e Ausentes, Adrião Spranger, mercador flamengo residente no Funchal, e João de Almeida, tendo no seu seio como irmãos e mordomos também distintas figuras da sociedade madeirense. O sufrágio pelas almas estava bem expresso nas Constituições Sinodais (Funchal, 1585), apelando ao cumprimento da execução dos testamentos (legados pios; missas).
Apesar do medo da morte e do desconhecido (vida além-morte) e da ameaça do Juízo Final, no Arquipélago da Madeira não foi muito comum a construção de igrejas ou ermidas com orago dedicado às Almas ou ao Arcanjo São Miguel, comparando com outras devoções. Algumas capelas foram demolidas e poucas sobrevivem como a Capela das Almas Pobres (Funchal) ou a do Sítio da Vargem (Câmara de Lobos). Proliferaram, no entanto, capelas e altares dentro dos conventos e das igrejas. Encontramos ainda hoje pintura e imaginária com a representação das «Almas da Purgatório» e do «Arcanjo São Miguel», desde o século XVI ao XVIII, em algumas igrejas, como, por exemplo, na Sé, Colégio, Caniço, Santa Cruz, Machico, São Jorge, Porto Moniz, Estreito de Câmara de Lobos e Ribeira Brava.
Dentro das várias obras destacamos o retábulo do «Arcanjo São Miguel e as Almas do Purgatório», hoje na Igreja de São Bento (Ribeira Brava), pintura a óleo sobre tela, assinada pelo pintor protobarroco português, Martim Conrado: «M. Conrado. me fesit. anno. 1649». A sua proveniência deverá ser uma antiga e demolida Capela das Almas que estava construída contígua à igreja matriz.
As lutas e glórias do arcanjo São Miguel estão escritas nas Sagradas Escrituras, como premonição e prefiguração do salvamento dos justos. São Miguel, chefe das Milícias Celestiais, que luta contra o dragão (mal), é o guardião da porta dos santuários, por isso, encontra-se representado nas igrejas e cemitérios, como pesador das almas no Juízo Final.
Texto: Rita Rodrigues /DRC
 
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«Arcanjo São Miguel e as Almas do Purgatório» (pormenor), de Martim Conrado, 1649. Igreja Matriz da Ribeira Brava. Foto: RR.
 

almas2«Arcanjo São Miguel e as Almas do Purgatório» (pormenor), de Martim Conrado, 1649. Igreja Matriz da Ribeira Brava. Foto: RR.

almas3«Arcanjo São Miguel e as Almas do Purgatório» (pormenor), de Martim Conrado, 1649. Igreja Matriz da Ribeira Brava. Foto: RR/DRC.

almas4«Almas do Purgatório» (pormenor). Séc. XVIII. Igreja Matriz de Machico. Foto: RFP/DRC.

almas5«Almas do Purgatório». Séc. XVII. Igreja do Porto Moniz. Foto: RR/DRC.