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O dia 6 de janeiro alude à história dos Reis Magos do Oriente e a sua adoração ou homenagem a Jesus Cristo, tratando-se, assim, de uma Epifania. Estão associadas a este episódio duas cenas da vida de Jesus e de Maria: a «Natividade», momento mais íntimo e familiar, e a «Adoração dos Pastores», com figuras populares e modestas oferendas. Apenas o Evangelho de São Mateus (Mt 2:1-12) refere a «Adoração dos Reis Magos», que ocorreu doze dias depois da Natividade (Nascimento), a que prevalece mais comum, tendo outras fontes indicado que Jesus teria dois anos, tendo já sido circuncidado e apresentado ao templo, por isso, é representado não na cama de palhinhas deitado, mas de pé sobre os joelhos de sua Mãe.

Segundo Louis Réau (1881-1961), historiador e iconólogo francês, que seguimos neste apontamento através da sua obra «Iconografía del Arte Cristiano. Iconografía de la Biblia. Nuevo Testamento», os Magos do Oriente procuravam o rei dos judeus, cujo nascimento fora revelado por uma misteriosa estrela, tendo então o rei Herodes, “o grande”, que governava a Palestina, convocado os magos ao seu palácio, ordenando-os que logo que soubessem do paradeiro do Menino deveria ser informado, pois queria também visitá-lo e adorá-lo. Mas o «Édito de Herodes» revela o contrário, cuja ordem era matar todos as crianças com menos de dois anos, provocando o «Massacre dos Inocentes», conforme se lê em São Mateus (Mt 2:16-18). Os magos, cuja origem não é esclarecida, poderiam ser persas, caldeus ou árabes, foram avisados, em sonho, que não deviam facultar tal informação a Herodes, e depois de adorarem o Menino regressaram por outro caminho.
Inicialmente os magos foram indicados como simples astrólogos persas que sabiam ler o futuro nas estrelas, mas no Evangelho de São Mateus são referidos por «reis», dando, assim, grande dignidade a estes visitantes, depois dos simples pastores, situação defendia por Orígenes (c.185-c.253), “o cristão”, nascido em Alexandria (Egito), que, no século III, indicou três reis magos, confirmado depois por Tertuliano (c.160-c.220), autor cristão, nascido em Cartago, e no século VI por Cesario de Arles (c.470-543), monge em Lérins (Riviera francesa) e bispo de Arles (comuna francesa). Nos primórdios foram representados nas pinturas das catacumbas dois reis magos e até quatro, e mesmo doze pelos sírios estabelecendo uma relação com as doze tribos de Israel. Acabou por prevalecer o número três, mais simbólico: «Santíssima Trindade», Pai, Filho e Espírito Santo; a três idades da Virgem Maria; os três continentes então conhecidos: Ásia, África e Europa, especialmente durante a Idade Média, situação que levantará problemas a partir de finais do século XV com a descoberta de um novo continente, “Novo Mundo», sendo acrescentado, por vezes, um quarto mago, representando a América. Atendendo que São Mateus indicou a oferta de três prendas, correspondendo, hipoteticamente, ao número de doadores, manteve-se este grupo em três figuras, cujos nomes apenas surgiram no século IX, em 845, por via popular: Melchior, o mais velho, ofertou ouro, simbolizando a ascendência real de Jesus, da casa de David; Baltazar, o mago de meia-idade, ofereceu incenso, remetendo para a natureza divina de Jesus; e Gaspar, o “rei negro”, mais jovem, entregou a Jesus mirra, ingrediente utilizado nos embalsamentos, prefigurando o sacrifício de Cristo, e, consequentemente, a sua morte. A simbologia das prendas está bem explícita na obra hagiográfica «Legenda Áurea», escrita, em 1293, por Tiago de Voragine (1228-1298), arcebispo de Génova. São Bernardo de Claraval (1090-1153), abade francês e um dos Doutores da Igreja, e São Nicolau de Lira (1270-1349), nascido na Normandia, frade menor e teólogo, indicam outras funções às oferendas: ouro para aliviar a pobreza da Virgem e do Menino; incenso para desinfectar o estábulo e dispersar o mau cheiro; a mirra para fortificar o Menino expulsando do seu organismo vermes e parasitas.
É a partir do século XII que se individualizam a origem dos reis magos, com identificação étnica, mas o vestuário foi-se alterando ao longo dos séculos de acordo com a moda e aproximando os trajes dos magos ao gosto da realeza e nobreza.
Na Madeira existem dois retábulos, com a representação da «Adoração dos Reis Magos», que merecem destaque especial, quer pelas suas qualidades técnicas e plásticas, quer pela sua datação, sendo ambos de oficinas flamengas e que enriquecem o património escultórico da ilha.
Um dos retábulos pertence ao Museu Quinta das Cruzes - «Retábulo da Natividade» (MQC1050), onde estão representados «Os esponsais da Virgem» (à direita); a «Adoração dos Reis Magos» (ao centro); e a «Adoração dos Pastores» (à esquerda). Executado em madeira de carvalho, encontra-se datado da primeira metade do século XV (c.1440-1450) e atribuído ao «Mestre do Retábulo de Rieden» (perto de Sahwäbisch Hall, Estugarda, Alemanha), um escultor ativo entre 1430 e 1445, em Bruxelas, cuja atribuição se deve ao professor e historiador de arte e arqueologia, Ignace Vandevivere (1938-2004), de nacionalidade belga, docente da Université Catholique de Louvain (UCL). O «Retábulo da Natividade» foi doado, em 1951, por João Wetzler, um comerciante austríaco, dedicado ao mercado antiquário, refugiado da Segunda Guerra Mundial, que assim agraciou a Madeira pelo seu acolhimento desde 1939. Este retábulo foi comprado em Londres na primeira metade do século XX.
O outro retábulo encontra-se na Capela dos Reis Magos, na Calheta, fundada em 1529 por Francisco Homem de Gouveia, escudeiro fidalgo, e sua mulher, D. Isabel Afonso, integrada numa extensa propriedade agrícola. Da primitiva construção ainda sobrevivem o teto hispano-mourisco e uma fenestração rampeada, em cantaria regional, no lado direito do altar-mor, com duas figuras esculpidas em vulto que se integram numa decoração fantasista. O portal apresenta arcaturas biseladas e capitéis historiados, encimado com as armas da família Homem. O «Retábulo dos Reis Magos», obra mista (escultura e pintura), apresenta no centro um conjunto escultórico representando a «Adoração dos Reis Magos», obra de oficina flamenga (Antuérpia), sendo observadas marcas de oficina na estrutura retabular, estando datado de cerca 1520-1530.
Texto: Rita Rodrigues (DRC/DSPC/DEP)
 
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«Retábulo da Natividade»: «Esponsais da Virgem» (à direita); «Natividade» (ao centro); «Adoração dos Reis Magos» (à esquerda). Primeira metade do século XV (c.1440-1450). Atribuído ao «Mestre do Retábulo de Rieden, escultor ativo entre 1430 e 1445, em Bruxelas. Madeira de carvalho. Alt. 136 x Larg. 126,5 x Prof. 20 cm. Museu Quinta da Cruzes (MQC1050). Foto: DRC/Roberto Pereira.
 

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«Retábulo da Natividade» - «Adoração dos Reis Magos» (à esquerda). Primeira metade do século XV (c.1440-1450). Atribuído ao «Mestre do Retábulo de Rieden, escultor ativo entre 1430 e 1445, em Bruxelas. Madeira de carvalho. Museu Quinta da Cruzes (MQC1050). Foto: DRC/Roberto Pereira.
 

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«Retábulo da Natividade» - Pormenor da «Adoração dos Reis Magos» (à esquerda). Primeira metade do século XV (c.1440-1450). Atribuído ao «Mestre do Retábulo de Rieden, escultor ativo entre 1430 e 1445, em Bruxelas. Madeira de carvalho. Museu Quinta da Cruzes (MQC1050). Foto: DRC/Roberto Pereira.
 
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«Retábulo dos Reis Magos». c.1520-1530. Oficina flamenga (Antuérpia). Óleo sobre madeira e escultura dourada e policromada. Alt. 130 x Alt. 171 cm. Propriedade da Capela dos Reis Magos (Estreito da Calheta). Foto: Exposição «As Ilhas do Ouro Branco. Encomenda Artística na Madeira. Séculos XV-XVI», Museu Nacional de Arte Antiga, 2017. Foto: Paulo Alexandrino.
 

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«Retábulo dos Reis Magos» (pormenor). c.1520-1530. Oficina flamenga (Antuérpia). Óleo sobre madeira e escultura dourada e policromada. Capela dos Reis Magos (Estreito da Calheta). Foto: DRC / Roberto Pereira.