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Cadernos de Campo n.º 8
Onde a lã vive.
Recolhas Etnográficas, 2017 - 2025.
Museu Etnográfico da Madeira.

Coordenação: Lídia Góes Ferreira
Textos: Irina Andrusko
Edição: Direção Regional da Cultura / Museu Etnográfico da Madeira, 2024.

ISBN: 978-972-648-303-8.

Idioma: Português

Introdução
A todas as fiandeiras

Este Caderno de Campo é dedicado à lã de ovelha regional e a tudo o que ela representa, nomeadamente, o animal que a carrega, o território, o pastor, a fiandeira, ou os artefactos. É o resultado de um trabalho de investigação, que assumiu um olhar feminino.
O investigador tende a assumir um papel de observador, que analisa e contextualiza. Contudo, este Caderno de Campo, com o seu caráter prático e aplicado, privilegiou uma abordagem de proximidade. Tornámo-nos fiandeiras, para experienciar e compreender o processo em todas as suas dimensões, e apresentamos os resultados.
Optámos por evidenciar o papel das mulheres, não porque o trabalho com lã fosse exclusivamente feminino ou considerado "trabalho de mulher" – até porque, historicamente, nem era reconhecido como ofício ou arte, mas sim como uma atividade comum e quotidiana. O foco recai na força criativa e no potencial infinito das mulheres que, ao longo dos tempos, asseguraram a continuidade e a preservação deste saber.
A pesquisa centrou-se nos criadores de ovelhas do Perímetro Florestal das Serras do Poiso e nas mulheres que ainda trabalham a lã, em várias localidades.
Na abordagem ao tema, procurámos dar voz a todos os intervenientes: autoridades oficiais, criadores, fiandeiras e artífices, cada qual representando os seus interesses, contemplando desde a conservação da natureza e fiscalização até à salvaguarda do património, proteção dos pastos e viabilidade económica das suas atividades.
A presença das ovelhas e da lã, na Madeira, remonta ao período da sua descoberta. O primeiro capítulo começa com as tosquias, o evento que reune criadores de gado, compradores de lã e artífices. Explora o seu passado e situação atual, analisa questões da pastorícia e o património a ela associado, aborda as tipologias de ovelhas da ilha da Madeira, as caraterísticas da lã e a sua situação atual.
A pesquisa não abrangeu a situação da lã no Porto Santo nem noutras zonas da Madeira, mas seria interessante, no futuro, expandir a metodologia aplicada para obter um contexto mais alargado.
O segundo capítulo tem uma abordagem prática, procurando descrever o processamento da lã como matéria-prima regional, desde a recolha nas tosquias, até à obtenção do fio. Destacam-se as fiandeiras e artífices de tricot, estreitamente ligadas à pastorícia, localizadas nas áreas adjacentes ao Poiso. Contém informações práticas que podem incentivar o interesse no ciclo da lã ou servir para fins educativos.
O terceiro capítulo é dedicado a um método de trabalhar o fio de lã: o tricot. Este é um ponto fulcral, o "presente que dá futuro ao passado". Trata-se de uma parte descritiva do repertório do tricot regional, mas também técnica.
Contámos com um contributo importante para a salvaguarda do património cultural: o trabalho realizado por Rosa Pomar, que disponibilizou a análise de peças de tricot. Neste capítulo, os leitores são convidados a seguir as instruções, para confecionar o barrete de orelhas e o casaco, com receitas recolhidas junto de Isabel Ferreira (Ribeiro Frio) e Isabel da Eira (Camacha), duas grandes artesãs que dominam este ofício como ninguém. Foi ainda possível recriar, com base na pesquisa e na observação das peças preservadas na ilha, o barrete de bolota, uma peça praticamente esquecida. Este trabalho reveste-se de grande importância, pois pretende devolver à comunidade um elemento do seu saber-fazer, incentivando-a a confecionar esta peça tradicional.
O quarto capítulo contém algumas informações sobre como proteger peças de lã em casa. Explicam-se, de forma acessível e geral, os métodos de conservação preventiva, ou seja, a prevenção de danos e o que deve ser feito caso estes ocorram.
No quinto capítulo, sobre o futuro da lã regional, enfatizamos que não podemos ignorar de onde viemos, o que alcançámos e o valor da matéria-prima local, frequentemente desperdiçada, ano após ano. Num mundo que enfrenta desafios climáticos e está saturado de greenwashing, destacamos a importância de valorizar o que está ao nosso alcance e que pode ser aproveitado de forma sustentável.
Este estudo não é exaustivo nem pretende ser único. Reconhecemos o trabalho inestimável dos investigadores que nos precederam e somamo-nos ao esforço para preservar este património cultural, partilhando a nossa perspetiva com a comunidade.
A exposição temporária, patente ao público no Museu Etnográfico da Madeira, de 17 de outubro de 2024 até 12 de abril de 2025, "Onde a Lã Vive", foi o resultado visual e tangível desta pesquisa, representando o culminar do trabalho e das descobertas aqui apresentadas.
Esperamos que este livro inspire novos entusiastas a explorar o trabalho com a lã regional, ajudando a revitalizar esta tradição, mesmo aqueles que não sabem por onde começar.

Irina Andrusko