Atividades Lúdicas | Brinquedos | A Roca

São dos brinquedos mais antigos existindo, nas antigas civilizações, registos de rocas feitas em argila e cerâmica. Tratavam-se de objetos ocos, usualmente com o formato de pequenos animais ou esferas e continham pequenas pedras, sementes ou pedaços de argila, para produzir som, ao serem "abanados". Mediam entre 4,5 e 6 centímetros e possuíam cabos muito pequenos, pequenos demais para as mãos de um adulto, o que permitiu concluir tratarem-se de objetos desenhados especificamente para a preensão de bebés e crianças pequenas. O ruído produzido pelas rocas de cerâmica era suave e de baixo volume, o que comprovava que o objetivo não era fazer barulho numa cerimónia ou ritual, mas sim produzir um som focado na curta distância do berço, ideal para distrair, acalmar e adormecer o bebé.

Nas civilizações antigas, a roca não era tida apenas como um objeto lúdico mas, também, mágico, na medida em que se acreditava que o seu ruído rítmico tinha o poder de afastar os maus espíritos que pudessem rondar ou adoecer o recém-nascido.

Na Europa Medieval e no início da Idade Moderna, a transição das rocas de argila e cerâmica para materiais como a prata e o ouro, representou uma mudança profunda. O brinquedo deixou de ser apenas um utilitário doméstico e passou a ser, igualmente, um símbolo de estatuto social, proteção mágica e uma obra-prima de alta joalharia. Para celebrar o nascimento encomendavam-se, aos melhores ourives da Europa, rocas feitas inteiramente de prata maciça ou ouro. Estes objetos tornaram-se tão valiosos que eram gravados com os brasões das famílias e passavam, de geração em geração, através de testamentos.

Ao longo dos tempos e com o desenvolvimento da pediatria e da pedagogia, o foco da roca mudou do misticismo para o desenvolvimento cognitivo, ao perceber-se que o som ajudava os bebés a compreender a relação causa-efeito, ou seja, que abanar o objeto fazia surgir o som. Por outro lado, o seu formato foi adaptado para a preensão palmar (reflexo do bebé em agarrar as coisas), passando a construir-se estes brinquedos com outros materiais mais seguros como a madeira e, mais tarde, o plástico.

Em 1921, em Alfena, iniciou-se a produção dos primeiros brinquedos tradicionais em Portugal. Para baixar o custo de venda e face às dificuldades sentidas durante a Segunda Grande Guerra, o brinquedo de chapa e de folha de Flandres era aproveitado pelos fabricantes de brinquedos de Alfena e Ermesinde. Deslocavam-se às fábricas de Matosinhos e regateavam os restos que sobravam das latas, reutilizando-os. Os primeiros brinquedos feitos em lata “chapa de folha flandres”, foram as gaitas, com asa seguidas, em 1923, pela primeira roca para bebés, que continha no seu interior pequenas pedras, oriundas das margens do Rio Leça, em Alfena, fabricados pelo artesão José Augusto Júnior “JAJ”.

Texto: Lídia Góes Ferreira | Museu Etnográfico da Madeira.
Fotografia: Retrato de uma mulher com Tristão Henrique Bettencourt da Câmara ao colo, segurando uma roca, MFM-AV, em depósito no ABM, JAS/1427 (Pormenor).

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